Jogando no feijão o chá inebriante
- caiobrandao90
- 20 de mar. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jun. de 2022
Por volta das nove da manhã saímos caminhando do Hotel New Otani, em Tokyo, com destino a templo budista, situado nas imediações. Em minha companhia, como cicerone, Mitiko Ogura Ramos, empresária de sucesso, nissei poliglota, que residia em São Paulo e, que, no Japão, mantinha influência em importantes nichos de negócios. A minha estada naquele país, a convite, tinha a ver com visita agendada ao político Michio Watanabe, nessa ocasião deputado federal, ex-ministro ministro da fazenda do Japão e pessoa muito ligada ao primeiro-ministro Nakasone, criador do Fundo Nakasone, que bons serviços prestou aos países em desenvolvimento, inclusive o Brasil.
A visita ao templo era apenas uma distração, haja vista o fato de o encontro com Watanabe estar agendado para o período da tarde. Distração, mas tinha a ver com vertente esotérica, que sempre cultivei com superficialidade. À entrada curvei o corpo para frente, a partir da cintura, em “ojigi” mal ensaiado, tentando imitar a minha acompanhante, mas mantendo os braços ao longo do corpo, enquanto ela, conforme a tradição, colocava as mãos juntas sobre as coxas, e nos acomodamos no interior do santuário. O monge, de pé e próximo às pessoas, fazia preleção que me pareceu altamente espiritualizada. Ele falava em japonês, óbvio, mas o meu imaginário traduzia as suas palavras como sendo delicadas mensagens de fé e reflexão, voltadas para o campo evolutivo, o aperfeiçoamento do indivíduo perante si mesmo e a imaterialidade do infinito. Em dado momento soou gongo de som penetrante, que me adentrou o espírito e quase levitei, tamanha a compunção do momento. O ritual estava findo e saímos em direção à rua. Na calçada, perguntei à Mitiko sobre a mensagem, que tanta emoção trouxe ao meu interior e ela disse: “Há! ,o monge falava da importância dos cuidados com a hidratação no período do inverno, que se aproxima, da relevância da escolha das vestes, que devem ser adequadas e cobrir extensa área do corpo, além da alimentação, que precisa ser balanceada nesse período, de forma a ser evitado o consumo excessivo de calorias, dentre outras recomendações”. Agradeci a explicação e me curvei diante da minha ignorância e arrependido por ter interrogado a cicerone, porque melhor seria ter permanecido com a primeira impressão, estaria no lucro.
Watanabe me recebeu em seu gabinete, na Câmara dos Deputados. O gabinete era amplo, quase um apartamento, com sala, quarto e banheiro. Entrei sem sapatos, mas fumando, uma grosseria. Logo surgiu diante de mim, posto sobre mesinha de centro, cinzeiro de cristal trabalhado, com água no seu interior. A água se destinava a evitar a fumaça e o odor de cigarro mal apagado, que poderiam se espalhar e contaminar o ambiente. Conversamos, com o apoio de interpretes, sobre a comunidade Nikkei em Paracatu, nas proximidades de Brasília, e ouvi relato entusiasmado sobre as experiências japonesas no âmbito de novas fronteiras agrícolas contempladas no Prodecer, Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados. O ex-ministro tinha aguçada curiosidade sobre vários temas inerentes aos projetos em vias de implantação no Brasil, em diversos segmentos, inclusive no setor de infraestrutura e a conversa correu solta. No dia seguinte retornei a São Paulo, mas deixei registrado convite para comitiva de empresários japoneses, em retribuição às atenções recebidas.
Decorrido algum tempo a visita foi agendada. Resolvi recepcionar a comitiva em sítio que mantinha em Caeté, cidade próxima à capital, cujo prefeito, Jair de Carvalho, era sogro do deputado Carlos Eloy, com quem eu mantinha estreito relacionamento. Face ao gosto dos japoneses pelo consumo de carne vermelha, convoquei o amigo Fernando Telles, jornalista dotado de inteligência febril, para se responsabilizar pelo manejo do churrasco, uma de suas inúmeras aptidões. Fernando era libertário dotado de múltiplos talentos, inclusive o gosto por inebriantes chás de cogumelos que ele, com maestria, colhia na natureza. Fernando chegou ao sítio na noite anterior para preparar a carne e deixar pronto o cenário no qual deveria atuar. No dia seguinte, no horário agendado, se fizeram presentes convidados locais, os empresários japoneses, o Carlos Eloy, o prefeito de Caeté, Jair de Carvalho, o então presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Agripino Abranches Viana, o amigo Euler Corradi e alguns seguranças. A Vale do Rio Doce, para os japoneses, era de vital importância no tocante às questões minerais, e a presença do Agripino acrescentou ingrediente especialíssimo ao encontro no sítio: melhor impossível. Mas, havia algo preocupante naquela reunião, que deveria transcorrer irrepreensível e sob todos os aspectos irretocável. Fernando se comportava de maneira diferente, um pouco estranha, e abusava da adição de temperos exóticos no preparo da carne. Percebendo a iminência do fracasso, perguntei de forma incisiva ao meu amigo churrasqueiro, se ele havia consumido algum tipo de chá. Ele respondeu que sim, uma poção de cogumelo básico, de baixa excitação, confirmou balançando a cabeça. Bom, o que está feito não está por fazer, pensei comigo e deixei rolar. Mas, por precaução, no sentido de evitar a perda do controle da situação, retornei ao Fernando e indaguei se havia sobrado alguma quantidade do chá inebriante Ele respondeu que não e, preocupado, em tom ríspido, questionei se ele havia bebido o restante. Fernando sorriu, me chamou de lado e cochichou baixinho ao meu ouvido: Brandão, eu misturei meio litro no feijão.
São coisas da vida, coisas das Minas Gerais.

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