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De frente para o OVNI caiu desmaiado no Curral do Capa Bode

  • caiobrandao90
  • 25 de jun. de 2022
  • 4 min de leitura

A minha interação com o Fernando Mandrake começou num sábado à tarde. Jeferson me ligou de uma pizzaria próxima à Sorveteria São Domingos, que ainda lá se encontra e quase centenária, em Belo Horizonte. Disse que estava em companhia de um vidente raro e excepcional, pessoa que valia à pena conhecer, haja vista o meu interesse pelo inusitado. Traga para cá, respondi de pronto. O vidente, que conheci por Fernando Mandrake, era de fato especial. Olhava para você e escrevia o número da sua carteira de identidade, do seu CPF, ou descrevia algum objeto no qual estivesse o seu pensamento fixado naquele momento. E, mais: pedia a alguém presente que saísse à rua, fosse até a esquina mais próxima, e anotasse o número das placas dos primeiros cinco ou mais carros que passasse m. A pessoa ia, voltava com os números e o Fernando, sem ver a anotação, os escrevia na mesma ordem em que foram listados. Um fenômeno, o cara. Chegou a escrever na palma da mão, o nome pela Paula Ratton (hoje com outro sobrenome) previamente por ela escolhido para sua primeira filha, que ainda não estava sequer em gestação: Júlia.


A descoberta me fascinou. Além dos dons especiais, Fernando se dizia perseguido por OVNIS e seres de outras dimensões, o que foi mais do que suficiente para eu contratá-lo como assistente. O plano dizia respeito a dar orientação “espiritual” a clientes mais próximos e a procurar saber, através de mentalização, informações de concorrentes relativas a propostas de preços em licitações de alto valor. Tudo muito simples, cliente satisfeito, bem orientado, e concorrente derrubado, sem risco e sem preocupações.


A notícia do Mandrake correu solta. A minha casa no bairro Bandeirantes, na Pampulha, entrou para o rol dos templos da 4ª. Dimensão e as pessoas começaram a aparecer, inclusive gente que eu não conhecia. Mandrake se tornou consultor espiritual de empresários e madames, me transformando em anfitrião para o sortimento de bebidas exóticas e salgadinhos refinados, tudo às minhas expensas. Sobre as licitações nada de relevante aconteceu, nenhuma informação útil e quanto aos números, não surgiram algarismos nas visões do vidente, que apareciam embaçados, segundo ele. Mediante tal insucesso, parti para os prêmios da loteria esportiva, um fracasso. O Mandrake jogava à vontade nas lotéricas, com o meu dinheiro, mas premiação, nenhuma, ficando os acertos na média dos alcançados pelas pessoas comuns, sem dons e sem adivinhações. Em paralelo, Mandrake cativava admiradores, recebia promessas de valores e ampliava invejável círculo de influência, englobando empreiteiros, políticos, atrizes, pessoas da sociedade e, o mais grave, com o meu aval.


Diante da situação, resolvi dar meia-volta, encerrar as consultas em minha casa e dar fim às mal sucedidas adivinhações licitatórias, direcionando o meu interesse para os OVNIS, uma espécie de prêmio de consolação. Assim, seguimos para Baldim, cidade próxima, local de abduções inexplicáveis, dentre outras ocorrências. Mandrake dizia se encontrar com alienígenas no topo de um morro local, para onde nos dirigimos, ele, o Fernando Telles, e eu. No topo tiramos fotos de naves invisíveis e de seres de outras dimensões, mediante o uso de filmes de milhares de “asas”, que não foram capazes de nada capturar, além do cenário ambiente e visível. Enfim, o Mandrake realmente tinha dons, mas inúteis aos nossos propósitos, além de ser detentor de extensa folha corrida, que ilustrava as suas incursões no plano material.


Demos cartão vermelho para o Mandrake e seguimos em direção a Mucugê, cidade baiana e foco, na ocasião, de inúmeros avistamentos de OVNIS e de bolas de luz sem explicação. Levei uma enorme luneta e o meu sortimento de uísque, algumas garrafas, e o Telles a sua matula de ervas de Provence, sempre um risco. Do aeroporto de Salvador descemos direto para Mucugê, viajando mais de quatrocentos quilômetros, em seis horas de viagem. A cidade era modesta e nos hospedamos no melhor hotel à época, cuja diária era de apenas oito reais. Na manhã seguinte nos enturmamos com outros otimistas caçadores do impossível, que programavam vigília de observação na periferia da cidade. Nos afastamos do grupo e no “Bar do Alemão”, ponto de encontro de observadores, conhecemos dois turistas incomuns, como nós, sendo um deles bizarro, porque tinha apenas uma orelha. A do lado direito, que não existia, consistia em um buraco avermelhado nas bordas e ornado com cabelo eriçado e aos chumaços. Isto foi suficiente para o nosso alinhamento com aquele ser diferente, talvez habitante de alguma estrela mais próxima. Essa possibilidade, apesar de excitante, era remota, mas admiti-la reforçou sobremaneira as nossas expectativas no tocante ao cosmo e os seus habitantes.


No final da tarde, sob a orientação do Alemão, dono do bar e guia das buscas aos fenômenos inexplicáveis, subimos o morro em direção ao “Curral do Capa Bode”, local onde os bodes eram castrados, e de onde se descortinava a linha do horizonte e, principalmente, o céu espetacularmente estrelado. O Alemão bebia sem parar, o Fernando consumia as suas ervas, eu usava a luneta e os estranhos conversavam entre si, em outro idioma. De repente, na linha do horizonte, surgiu uma luz poderosa. O Alemão, com os braços levantados, gritou emocionado: “olha o disco, olha o disco!!! Ficamos pasmos, vendo a luz se aproximar cada vez maior, mais forte e agressivamente ofuscante. Quanto mais perto a luz, mais o alemão gritava, elevando e afinando a voz nos tons mais altos, enquanto os estranhos desapareciam apressados, se enfurnando mato adentro. Fernando, em êxtase, não se dava conta do fenômeno, porque já se encontrava em outro plano. Me assustei, busquei abrigo atrás da camionete, a luz parou, enorme, à nossa frente, e o Alemão enlouquecido, caiu desmaiado. A luz se apagou, se tratava de um jipe com um dos faróis queimado, guiado por fazendeiro das vizinhanças. O homem, simples e muito educado, perguntou: “ocês tão precisando de alguma coisa, moço?”

 
 
 

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1 comentário


guimatito
03 de jul. de 2022

Telles, genial. Como sempre, sabia segurar a onda. Grandes e belas crônicas importantes.

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